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Além de um Judaísmo Pediátrico

December 1, 2015

 

 

ALÉM DE UM JUDAÍSMO PEDIÁTRICO

 

 

Resta pouca dúvida de que nós, educadores judaicos, temos tido alto grau de sucesso no que tange à educação de crianças. Ainda me lembro bem da primeira vez que, como jovem professora, vi um membro da comunidade cantando Daienu e Ma Nishtaná com perfeição — o menino tinha apenas 3 anos de idade. Também não há dúvida de que, quando lidamos com crianças dos primeiros anos do Ensino Fundamental, a prioridade seja compartilhar com elas o que ocorreu nos primórdios do nosso povo. Elas se encantam com as histórias sobre os patriarcas e matriarcas, a escravidão no Egito, o encontro com Deus no Monte Sinai, os quarenta anos no deserto. Conseguimos até transmitir-lhes os relatos da conquista da terra de Israel, dos juízes e profetas, dos reis, da destruição dos Templos. A maioria das crianças expostas desde cedo a tais ensinamentos, seja em escola judaica ou em programas suplementares oferecidos pelas sinagogas, chega à adolescência já familiarizada com muitas das narrativas da nossa Bíblia.

 

Mas, à medida que estas crianças se tornam adolescentes, será que continuamos tendo sucesso quanto à sua educação judaica? Eu ousaria dizer que não. Mesmo nos casos em que pensamos estar sendo bem-sucedidos, poderíamos alcançar resultados ainda melhores se mudássemos o enfoque do ensino de textos bíblicos. Curiosamente, nenhum de nós tem dificuldade em fazer esta transição quando se trata de histórias infantis ou fábulas como a da Cigarra e da Formiga, entre tantas outras. Para crianças pequenas, contamos a história em si, do jeito mais básico em que ela foi escrita. Conforme as crianças vão crescendo, passamos a discutir o que a história realmente significa, que lições aprendemos com ela. Pode parecer brincadeira, mas não é: universidades como Princeton, uma das melhores do mundo, oferecem cursos de literatura e ética com base em histórias escritas por Walt Disney e outros. E os alunos intelectuais que frequentam estas faculdades lotam as salas para assistir a tais aulas. Eles não dizem “Histórias de Disney? Eu não! Isso é para crianças.” Eles entendem que existe uma dimensão metafórica nas historinhas que lhes foram contadas na infância e que, olhando além do basico, veem-se muitos ensinamentos a serem extraídos destes contos. Por que será que não conseguimos fazer esta transição quando se trata das histórias da Bíblia, que vêm sendo transmitidas há milhares de anos em nossa tradição?

O problema, a meu ver, tem diversas faces e requer alguns passos nossos para tentar resolvê-lo. Primeiro, definir com clareza qual o nosso objetivo quando ensinamos a Bíblia aos jovens. Segundo, dar maior peso aos valores inerentes às histórias do que às histórias em si. Terceiro, ir além do texto bíblico, mostrando aos jovens que há centenas de camadas em cada narrativa (como dizem alguns, as histórias são como cebolas, cada vez que tiramos uma camada, aparecem as outras que estavam escondidas). Quarto, e talvez o mais importante, deixar os jovens à vontade para questionar, lembrando a eles que questionamentos fazem parte do judaísmo.

A pergunta que precisamos fazer antes de decidir o que e como ensinar é a seguinte: qual o nosso objetivo quando ensinamos a Bíblia a adolescentes? Dependendo da meta que queremos alcançar, temos que repensar se é válido mantermos a praxe de limitar o ensino bíblico ao Chumash — os cinco primeiros livros da Bíblia —, estudado apenas com base no texto e em comentários de Rashi[1], vez ou outra acrescidos de alguns midrashim (interpretações rabínicas). Por que não incluirmos no programa de estudo os Salmos, os Provérbios, Rute e Ester?

Quem sabe, ao invés de insistirmos em ensinar os mesmos livros, numa determinada ordem, como se tudo fosse linear, devêssemos inverter o processo e primeiro nos perguntarmos que valores queremos ensinar. A partir da resposta a esta pergunta poderemos estudar passagens bíblicas que abordem o tópico. Somente se tivermos em mente aonde queremos chegar, poderemos escolher qual o caminho mais eficaz a seguir!

Quando lidamos com adolescentes, é necessário estabelecer um currículo centrado em valores, em ideias mestras que queremos transmitir, e depois buscar os textos bíblicos que exemplifiquem estes respectivos valores (ou que mostrem as consequências de não ter tais valores como diretrizes). Este tem sido nos últimos anos o mantra da maioria dos educadores judaicos nos Estados Unidos: a chave para tirar os jovens do seu estado complacente é mostrar a eles quão relevante o texto biblico é para nossa vida aqui e agora. Há quem discorde desta ênfase na relevância; são poucos, mas existem. O rabino Eric Grossman, diretor da escola ortodoxa Frankel Jewish Academy em West Bloomfield, Michigan, diz que é exatamente a falta de relevância que atrai o interesse dos jovens[2]. Ele dá como exemplo o fascínio que os dinossauros exercem sobre as crianças. É comum elas serem capazes de citar os nomes de várias espécies de dinossauros, não porque seja um tópico relevante na vida delas, mas precisamente porque a total falta de relevância torna o estudo dos dinossauros um prazer em si mesmo. Torá Lishmá (o estudo da Torá pelo simples prazer de estudar) em sua mais pura forma!

Se quisermos insistir na relevância, certamente temos argumentos para embasar esta posição. Afinal, muitos dos problemas descritos na Bíblia são os mesmos de hoje: favoritismo paterno, rivalidade entre irmãos, competição pela liderança, dificuldade de tomar decisões de ordem ética e moral. Mas talvez tenhamos mais sucesso se instigarmos nossos alunos a recriarem na imaginação aquela sociedade tão diferente da nossa, onde tantas destas histórias se inserem. Permitindo a nossos alunos lerem a Bíblia como um grande clássico faz com que a mensagem de relevância de hoje não se perca amanhã. Transportar nossos alunos para tempos antigos estimula-os a conceber como seria um mundo bem diferente deste em que vivemos. E este é um fator que pode atrair a atenção dos nossos jovens.

Acredito que os dois pontos de vista sejam válidos. No entanto, depois de 25 anos trabalhando como educadora, tenho tido muito mais sucesso colocando ênfase no fato de que, embora as histórias bíblicas relatem acontecimentos de outras épocas, outras culturas, outras sociedades, sua mensagem é universal e atemporal. Quando trabalho com jovens ou adultos, cada vez que analisamos o texto bíblico eu o faço como se estivesse lendo um clássico da literatura mundial: comparando e contrastando passagens, discutindo as inconsistências do texto, fazendo uma análise do mundo em que estas histórias se inserem socialmente, culturalmente, antropologicamente. Que mensagems estas narrativas trazem? Por que foram colocadas ali? É óbvio que nem todos os relatos sobre o povo judeu são mencionados na Bíblia. Por que justo estes foram escolhidos (por Deus, para aqueles que acreditam ser Ele o autor do texto, ou pelos editores, para aqueles que acreditam ser a Bíblia um documento escrito por seres humanos, inspirados pelo Divino)?

Especialmente quando lidamos com adolescentes ou adultos, o ensino literal do texto bíblico é problemático. Enquanto as crianças pequenas aceitam a narrativa ao pé da letra, ao redor do 8º e 9º anos os adolescentes questionam as histórias bíbilicas[3]. Como aceitar que o mundo foi criado em sete dias quando temos dados científicos que falam de bilhões de anos? Se Adão e Eva estavam sozinhos no mundo com seus três filhos (ou filhos e filhas, de acordo com alguns midrashim), de onde veio o restante da humanidade? De relações incestuosas? É tambem nesta fase que os alunos afirmam que não acreditam em Deus e não acreditam na Bíblia. Podemos martelar na cabeça deles que estão errados, que Deus existe sim, que aquelas histórias aconteceram de verdade, mas qual será o resultado disso? Possivelmente uma convicção ainda maior de que tudo aquilo é uma bobagem inventada por adultos de séculos atrás.

Todos concordamos que a Bíblia é o texto primordial do judaísmo. Mas o conteúdo bíblico não pode ser visto isoladamente (a não ser que estejamos falando dos caraítas). O texto judaico evoluiu e continua evoluindo. Há um desenvolvimento constante do texto em si, que é complementado pelas opiniões rabínicas do Talmud, pelos midrashim, pela legislação de códigos como o Shulchan Aruch, por releituras cabalísticas do Zohar e por um corpus imenso de outros textos mais recentes. Para aqueles que já são capazes de fazer abstração do texto e de entender o ambiente em que surgiu cada grupo de comentários, a metodologia de desdobramento textual é profundamente intrigante e relevante. Entender como o judaísmo construiu seus textos a partir do alicerce da Bíblia significa entender quão dinâmicos são o processo de interpretação e a evolução do texto, resultantes em um judaísmo vivo que atravessa os séculos.[4]

No judaísmo liberal, afirma-se que o texto do Chumash não foi necessariamente escrito por Moisés. Entretanto, ao fazermos a hagbaá, quando erguemos o rolo da Torá para que todos possam vê-lo, cantamos a plena voz: “Esta é a Torá que Moisés deu aos Filhos de Israel, pela boca de Deus.” Temos que tomar cuidado para não passar aos jovens mensagens conflitantes. Os educadores liberais optam por um meio-termo — ensinamos que a Torá é um documento sagrado que reflete a influência de Deus sobre a humanidade. Até nisso, podemos mostrar aos jovens como nem sempre o que lemos ou dizemos deve ser entendido de uma forma estritamente literal.

E talvez aqui entre o elemento mais importante: além de mostrar aos jovens os valores impregnados nas histórias bíblicas, além de direcionar a atenção de nossos alunos para a relevância do texto, precisamos permitir — mais ainda, incentivar — o questionamento. Faz parte da estrutura interna de um adolescente questionar tudo aquilo que veio antes dele e tudo aquilo que o cerca. É frequente professores e rabinos passarem a impressão de que há somente duas opções: ser um bom judeu e aceitar o texto bíblico sem discussão ou então ser um “mau judeu” que rejeita toda a nossa tradição. Além de contraproducente, este tipo de visão distorce a própria natureza do judaísmo.

Cito aqui uma passagem de Ibn Ezra, rabino que viveu na Espanha no século XII: “Em todo coração existe sabedoria plantada pelo Eterno... O raciocínio é o alicerce (da real compreensão da Torá). Não era a intenção de Deus dar a Torá àqueles que não tivessem a capacidade de raciocinar. O emissário entre a pessoa e Deus é exatamente seu intelecto.”[5]

Ibn Ezra nos oferece uma terceira opção — a opção de nos envolvermos com o texto, de lermos e relermos, de compreendermos o contexto, de procurarmos seu significado e relevância para a vida de cada um de nós. Ou seja – o texto esta aí, em nossas mãos, para que possamos nos confrontar com ele. Afinal de contas, toda a nossa identidade se baseia nesta contenda com Deus e Seus ensinamentos. A palavra Israel, nome pelo qual somos conhecidos, significa “aquele que se debate com Deus”.

Em Pirkei Avot 5:24 lemos: “Ben Bag-Bag disse: ‘Leia e releia [a Torá], pois tudo está nela contido. Estude-a minuciosamente, envelheça e amadureça nela, e não se afaste dela, pois não existe melhor padrão do que ela.’” De fato, o que os rabinos nos dizem com esta injunção é que, não importa quantas vezes já tenhamos lido uma passagem bíblica e estudado o seu significado, há sempre alguma novidade à nossa espera. O sentido literal do texto (p’shat) não muda. O que muda é a nossa internalizacao do texto: o que veremos agora nas entrelinhas será diferente do que vimos anos atrás. A diferença entre as crianças menores e os adolescentes não é a fonte, não é o conhecimento, mas sim o fato de que, ao amadurecerem, os jovens estão prontos para ir mais a fundo na tentativa de ouvir a sabedoria daqueles que vieram antes deles, tanto para poderem entender a complexidade do texto — e, por que não dizer, da vida —, quanto para poderem encontrar respostas às suas perguntas.[6]

É fundamental que cada professor de Bíblia passe para os alunos a mensagem milenar de que o texto está ali para que possamos torná-lo nosso, no mais profundo sentido. O texto bíblico está disponível e é relevante para todos os judeus — independentemente de sua prática ritual, de seu grau de observância, até mesmo do que cada um acredita. Se apresentarmos esta ideia para os jovens, e se realmente permitirmos que eles questionem as passagens difíceis e questionem valores que lhes parecem ser antiquados, os jovens terão uma experiência profundamente enriquecedora.

Recomendo fortemente a leitura do livro Reclaiming our Legacy, do dr. Steven Brown, editado por Stephen Garfinkel em 1986. Apesar de ter sido escrito trinta anos atrás, o livro continua dando ótimas dicas aos jovens (e àqueles que são responsáveis por ensinar-lhes a Bíblia) de como tornar esta experiência gratificante. Questionar, diz o dr. Brown, é parte fundamental do processo. Questionar a natureza de Deus, a autoridade Divina, até mesmo a existência de Deus, promove interação com uma tradição milenar. A presença de muitas perguntas e a ausência de respostas faz parte desta busca! Se permitirmos aos nossos jovens compreender que a expressão de dúvidas e questionamentos sobre a fonte de autoridade não os isola do povo judeu — ao contrário, o enfrentamento destes questionamentos através do estudo da Bíblia os coloca bem no meio de tudo aquilo que é tradicionalmente judaico —, seremos mais bem-sucedidos em nossa tarefa de transmitir os ensinamentos das histórias da Bíblia.

Em última instância, o que queremos é levar nossos alunos a sentirem um enorme prazer quando estão com o texto bíblico em suas maos[7]. E para que possamos chegar a este ponto, é necessário apresentarmos primeiro o texto em si, p’shat. Depois disso, trazemos para a mesa comentários diferentes, tanto do Talmud quanto de Rashi e mais modernos como o da grande dama de estudos bíblicos em Israel, Nehama Leibowitz (z’l). Completada esta fase, introduzimos comentários recentes de estudiosos de Bíblia, que fazem uma análise estrutural e literária do texto. A combinação destas diferentes formas de abordar o texto gera perguntas e discussões, fazendo com que cada aluno sinta que o texto bíblico lhe pertence, que o texto fala com ele — com cada um de nós — num diálogo infinito.

 

 

 

 

[1] Holtz, Barry; What’s Worth Learning: The Bible and the Curriculum of Jewish Education Today; Revista Sh’ma, Tevet 5764

 

[2] Grossman, Eric; The Torah of Relevance: A Dinosaur Deserving Extinction; Revista HaYidion, Verão 2012

 

[3] Sagal, Doug; Teaching Torah; Revista Sh’ma, October 1997

 

[4]  Woocher, Meredith; Teaching More Than the Source; Revista Sh’ma, Tevet 5764

 

[5] Ibn Ezra, HaDerech HaShlishit, Introdução

 

[6] Brown, Steven; Reclaiming Our Legacy; United Synagogue of America – Department of Youth Activities;  1986

 

[7] Levenson, Alan; Transversing the World of Jewish Studies; Association for Jewish Studies; Fall/Winter 2002

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